Artigos e Estudos Bíblicos -
Louvor e Adoração, Estudo Biblico
A Medalha Oculta
Por Helder Assis
A recompensa dos olhos fitos na direção de Deus
Era um dia muito quente. Trinta e sete atletas disputavam a maratona olímpica feminina, cujo percurso de 42 km estava quase chegando ao fim. O forte calor levava as competidoras ao limiar da exaustão.
Enfim, uma delas cruza a linha de chegada em primeiro lugar. Medalha de ouro! Emoção indescritível também para as próximas duas atletas, que ganharam as medalhas de prata e bronze, honrando assim suas carreiras e levando para suas pátrias uma medalha olímpica.
Mas houve uma outra estrela que brilhou mais forte. Quase certamente você não se lembra quem foi a grande campeã da maratona dos jogos olímpicos de Los Angeles, em 1984. Mas certamente você já ouviu, leu ou viu na TV alguma informação acerca da atleta que cruzou a linha de chegada em último lugar.
A suíça Gabriele Andersen-Scheiss não ganhou medalha. Entretanto, apesar de sua trigésima-sétima colocação na prova, ela conseguiu marcar a história e emocionar o mundo.
Não havia mais ninguém atrás dela. Teoricamente já não haveria nenhuma motivação para que ela prosseguisse. Mas ela continuou. O corpo de Gabriele se contorcia, numa visível dificuldade de controle e coordenação motora. Estava quase totalmente desorientada. Inclinada para o lado esquerdo, mostrava uma acentuada perda do equilíbrio. Ela já não podia mais correr, e mesmo caminhando, o fazia em pequenos passos.
A cena começava a ficar dramática. O esgotamento de Gabriele era nítido. Sua musculatura estava seriamente comprometida, especialmente nos membros inferiores. Foi-lhe oferecido auxílio médico, porém Gabriele recusou – ela seria desclassificada se aceitasse. Os fiscais de prova demonstraram profundo respeito e devoção pelos passos cambaleantes da atleta, não impedindo que a mesma prosseguisse, apesar dos riscos a que ela estava se submetendo.
Gabriele se aproximou da linha de chegada capengando, e ao cruzá-la, seu corpo transfigurado desabou ao encontro do solo, sendo então amparado pelos fiscais. A multidão presente no Estádio Coliseum se colocou em pé, e aplaudiu calorosamente a heroína. Ela desafiou o natural, e venceu. Até hoje, cerca de 20 anos depois, a cena figura entre as mais marcantes de toda a história dos jogos.
E as campeãs? Bom, nada mudará o fato de que o podium foi das três primeiras colocadas. Mas você se recorda de seus nomes, quem foram, e que países representaram? O fato é que, neste dia, o conceito de vitória tornou um pouco abstrato e relativo. Afinal, quem foi a grande vencedora? Que medalha ela ganhou?
Creio que este acontecimento nos traz muitos ensinamentos por si mesmo. Mas, mesmo assim, gostaria de assinalar alguns pontos.
Uma questão de direção e oportunidade
Gabriele não podia mais vencer. Ela já estava derrotada na prova. Ela também já estava derrotada para seu próprio corpo. Mas, mesmo não tenho condições humanas, prosseguiu. Em entrevista concedida após a prova, a atleta declarou que já estava com 39 anos, e não teria outra oportunidade de ter uma participação olímpica. Teria de ser aquele dia.
Quantas vezes nós desistimos diante das dificuldades... quantas vezes nós permitimos que as limitações se tornem gigantes para nós.
Falando em gigantes, lembro-me agora do servo Davi. Ele já estava humanamente derrotado para Golias, mas, mesmo assim, prosseguiu. Ele tinha uma direção, um objetivo, e aquela seria a oportunidade de exaltar o Deus de Israel perante os inimigos.
No natural, Gabriele já estava derrotada, porém ela estava prosseguindo na direção certa: a linha de chegada. A oportunidade era aquela. Não haveria outra.
A batalha travada entre Davi e Golias já tinha um vencedor natural: Golias. Entretanto Davi prosseguiu, pois ele estava na direção certa: a vontade de Deus.
Às vezes teremos de decidir prosseguir ou não em uma direção, e só deveremos prosseguir se aquela for a direção de Deus. E se for a direção de Deus, Ele nos dará uma oportunidade para cumprirmos o chamado.
Uma questão de risco e preço
Por sua insistência, o corpo de Gabriele poderia ter sucumbido a qualquer momento. Ela poderia ter morrido, por submeter o seu corpo a um esforço maior do que poderia suportar. Mas, para prosseguir, haveria um risco a assumir. O risco era a própria vida. Havia um preço a pagar por desafiar a natureza e sua estrutura física.
Davi também fez isso um dia. O que fez aquele pequenino jovem desafiar o gigante Golias sem a armadura, e com apenas uma funda? Ele não sabia que poderia morrer? Ele não sabia o risco que corria? Claro que sabia. Mas aquele que estava com ele era maior que tudo. Ele se dispôs a pagar o preço, pois tinha fé no seu Deus.
Este Deus de Davi é o nosso Deus, poderoso e tremendo!
Quem está na direção correta arrisca o que tiver de mais precioso para aproveitar sua oportunidade, ainda que seja sua própria vida. Muitas vezes haverá um risco a ser considerado e um preço a ser pago para se estar no centro da vontade de Deus.
Uma questão de amparo e recompensa
Algumas das vezes que eu vi esta cena de Gabriele na TV, fiquei me detendo nos fiscais de prova: eles permaneceram do lado dela por todo o tempo de seu sofrimento. Não só não impediram sua trajetória, como lhe ofereçam palavras de incentivo. E, quando estava tudo terminado, eles a ampararam, trataram e medicaram. Quando ela foi ao chão, eles a seguraram.
É este o papel do Espírito Santo em nossas vidas. Se nós estivermos indo na direção que Deus quer, mesmo que estejamos esgotados fisica e emocionalmente, Ele estará ao nosso lado. Oferecerá palavras de incentivo. E no momento certo, nos segurará. Quando conseguirmos cumprir nosso chamado, seremos coroados com a maior glória que uma pessoa pode ter, que é o amparo dos braços do Pai.
Sei que poderia me delongar mais nas considerações, mas creio que já é suficiente para nós iniciarmos uma reflexão sobre as nossas próprias vidas.
Que possamos ouvir de Deus a direção que Ele tem para as nossas vidas; que possamos assumir todo o risco de nosso chamado; que façamos dos sonhos de Deus os nossos próprios sonhos, pagando o preço para mantê-los vivos, tendo a certeza do amparo de nosso Pai, e de sua recompensa incorruptível!
Que o Senhor tenha misericórdia de nós e nos capacite a cumprirmos o chamado que Ele tem para nossas vidas. Amém!
Membro da Igreja Evangélica Capela do Calvário e integrante do Ministério Sacrifício Vivo
e-mail: helder@sacrificiovivo.com
Obs.: apenas a título de curiosidade, a vencedora da prova foi a americana Joan Benoit, que cruzou a linha de chegada cerca de 20 minutos antes de Gabriele. Sabia?